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Era uma vez um reino muito, muito limpo governado pelo Rei Limpinho e outro muito, muito sujo governado pelo Rei Sujão.
No reino limpo tudo era bonito, claro e organizado. As pessoas viviam felizes e saudáveis. Trabalhavam ou iam a escola sempre com muita energia; já no reino sujo era exatamente ao contrário.
As pessoas do reino sujo estavam sempre cansadas, doentes e sem vontade de fazer nada.
O Rei Limpinho era um governante muito preocupado com o desenvolvimento e bem estar do seu povo. Eles valorizavam muito a boa alimentação, a prática de esportes e a higiene pessoal. Cuidavam com carinho das suas casas e do seu reino. Eles se respeitavam e respeitavam o lugar onde viviam.
O Rei Sujão não sabia dessas coisas. Nada disso era importante para ele. As ruas do seu reino eram um horror. Se alguém comia um salgadinho, jogava a embalagem no meio da rua mesmo; ou se comia uma maçã, largava o miolinho no chão sem a menor preocupação que isso fosse deixar tudo mais feio, fedido e para piorar as coisas, ainda atrairia muitos insetos, como baratas e mosquitos que adoram uma sujeirinha.
Uma vez, um menino comeu uma banana e como todo mundo, jogou a casca em qualquer lugar e um homem que vinha logo atrás pisou na casca da banana e levou o maior tombo. Coitado!
Parece que ninguém ali pensava direito. Nunca perceberam que moravam numa casa, que ficava numa rua, que ficava num bairro, que ficava numa cidade, que ficava num estado, que ficava num país, que ficava num continente...ufa, que ficava num planeta. O nosso planeta!!!
Mas parece que ali ninguém se dava conta disso e aí, faziam tudo de qualquer jeito e achavam que isso era normal.
Quando o lixo era demais e começava a atrapalhar as pessoas de andarem pelas ruas, o Rei Sujão mandava que jogassem tudo no rio ou em algum canto da floresta para tirar do meio do caminho.
Há algum tempo atrás, no tempo em que a vovó Cris ainda tinha casa (ela continua no projeto "Minha vida cabe na mala"), Bernardo e Izabella foram passar o final de semana com ela.
Eles gostavam de fazer várias coisas juntos como jogar pingue-pongue, vídeo game, modelar com massinha, pintar, brincar de cabaninha, entre outras coisas. Mas se tinha uma coisa que eles gostavam mais que tudo, era de tomar o café da manhã na praça. Uma passadinha na padaria Camões para pegar um pãozinho gostoso, uma bolachinha, um suco e estavam prontos.
Aquele dia porém, Bernardo sugeriu que fossem tomar o café da manhã as margens de um rio que ele tinha ouvido falar e queria muito conhecer.
Rios e cachoeiras estavam entre as coisas que Bernardo mais gostava. Ele não sabia muito sobre este lugar, só o que tinham dito a ele, é que ficava entre dois reinos que eram muito diferentes e que tinha uma linda cachoeira. Isso bastou para que ficasse curioso e quisesse conhecer o lugar.
Junto com a vovó Cris e a prima Bella, deu um passadinha rápida na padaria para comprar as delícias para o café da manhã e lá foram eles para mais uma aventura.
Mas quando chegaram lá... prontinhos para fazer seu piquenique, que decepção! Ficaram só observando, sem coragem de comer naquele lugar. Tinha lixo para todo lado...pra cá e pra lá. Sofá velho, sapato furado, bicicleta enferrujada, patinete sem roda, latas de tinta, fralda suja...eca!...Era muita sujeira mesmo.
Voltaram tristes, pensativos e aquela altura já sem apetite. Todas aquelas delícias escolhidas com tanto carinho foram deixadas de lado. Ninguém nem lembrava delas.
Os três que eram muito falantes e estavam sempre conversando, naquele dia depois de ver o tal rio, ficaram tão desanimados que nem tinham vontade de falar.
Sentaram-se em um jardim com muitas árvores, bem longe do tal rio, para descansar um pouco antes de voltar para casa.
Bernardo não se conformava com aquilo. Como podia alguém fazer uma coisa dessas? Será que não percebiam que estavam "matando o rio"? Pensou em voz alta.
- Como assim, matando o rio? E rio por acaso tem vida que nem gente? Alguém que passava por ali perguntou.
Geralmente Bernardo e Izabella não se importavam em explicar as coisas para quem quisesse aprender, mas naquele dia em particular estavam tão aborrecidos com a situação que tinham visto, que foi impossível conter um olhar de enfado e um suspiro profundo diante de tanta ignorância.
- Claro que os rios tem vida, e como tem. Respondeu Izabella. E Bernardo continuou com a explicação:
- Os rios são fonte de alimento para muitas famílias. Eles fornecem a maior parte da água que consumimos e que usamos para cozinhar, para a nossa higiene e para irrigar o solo das áreas agrícolas.
- Tá...mas a pergunta não foi esta. Não perguntei sobre a importância dos rios, o que eu achei graça foi de você dizer que estavam matando o rio, como se ele tivesse vida própria, ora essa!, retrucou o Sr. Ig. Tinha sido ele a fazer aquela pergunta totalmente sem noção.
Já um pouco irritados, pois aquele estava sendo um dia realmente difícil, Bernardo e Izabella se entreolharam e depois olharam para vovó Cris pedindo com os olhos: - Vó explica para essa criatura, por favor! A gente já está perdendo a paciência.
E a vovó Cris explicou. Aliás ela adorava fazer isso de contar as coisas que sabia e de ouvir as coisas que os outros sabiam. Contou para o Sr. Ig (de ignorante), que os rios tinham vida sim, diferente da vida das pessoas, é claro, mas tinham vida. Os rios são ricos em oxigênio e é por isso que os peixes vivem nele. Um rio quando morre sua água cheira mal e os peixes acabam morrendo também. As pessoas já não podem usar sua água em casa, não podem nadar e não conseguem sequer navegar por ele.
O homem caiu na risada e falou: - Essa é boa...oxigênio. Ora, ora quem respira oxigênio são as pessoas...os animais terrestres.
Se fosse assim, peixe não morria fora d'água. Todo mundo sabe disso. Voltou a gargalhar e disparou: - Vocês são bem burrinhos hein!?
Bernardo só balançou a cabeça com desânimo, mas Izabella ficou indignada com o camarada que além de ignorante, era muito abusado. Primeiro se metia na conversa sem ser chamado e depois ainda chamava todo mundo de burrinho...burrinhos!?
Ela já tinha se colocado de pé e ia começar a dizer poucas e boas, quando vovó Cris fez um gesto pedindo que se calasse. Depois virou para o homem e disse sorrindo:
- Tem razão...não dá para saber sobre tudo. Nós estamos meio aborrecidos hoje. Viemos até aqui para fazer um piquenique às margens do rio e tomar um banho de cachoeira, mas infelizmente não foi possível. Ouvimos falar que esse rio fica entre dois reinos. O senhor sabe nos dizer onde estamos agora?
- Ah, mas é claro. Estas são terras do Rei Limpinho. Bom...mas eu não deveria estar aqui. A senhora e os meninos me dêem licença que eu já vou indo. De repente, o homem ficou todo atrapalhado, tropeçou e deixou cair a sacola que carregava e um monte de frutas se espalhou pelo chão.
Ele ficou nervoso e começou a pegar tudo com muita pressa. Bernardo e Izabella foram ajudar, mas mal conseguiram entregar as frutas que haviam recolhido. De uma hora para outra aquele homem todo arrogante, ficou parecendo um menino assustado. Tipo alguém que foi pego fazendo coisa errada, sabe?
Vovó Cris percebeu e pediu a ele que se acalmasse. Não havia motivo para ficar tão nervoso. O homem, que continuava com aquela cara de sapo cururu com conjuntivite, perguntou de onde eles vinham.
- De Santos, o senhor conhece? Perguntou vovó Cris. - Fica no estado de São Paulo.
- Não conheço não. Tem certeza que vocês são de lá mesmo? Não moram nas terras do Rei Limpinho?
- Vovó riu e falou: - Claro que não. Pois não acabamos de perguntar ao senhor onde estávamos? Não somos daqui.
O homem pareceu se acalmar um pouco. Pegou uma das frutas deu uma mordida com vontade e perguntou se podia sentar um pouco com eles.
- Por favor! Dessa vez foi Bernardo quem respondeu. Izabella ainda estava meio aborrecida. Queria mais é que ele pegasse logo as frutas e fosse embora.
Ele sentou-se ainda meio sem graça e ofereceu algumas das frutas, porém ninguém teve coragem de aceitar, embora elas parecessem deliciosas. Mas ele não era lá muito cheiroso e tinha as unhas muito sujas...e grandes. Tipo..."não corto as unhas há três meses e não lavo as mãos há seis". Pois é, deu nojinho. Ainda se fosse uma banana!
Ele terminou de comer a sua fruta e nos contou que morava do outro lado do rio, nas terras do Rei Sujão. Tinha ido até ali, porque um pouco mais adiante tinha um belo pomar e ele estava com fome.
Com medo que nos pensássemos que ele estava roubando, cuidou logo de explicar que o pomar era público e que qualquer pessoa poderia comer a vontade sem problema nenhum. O que ele não podia era estar ali e se apressou logo em perguntar:
- Vocês não vão contar nada para ninguém, né?
- Claro que não. Fique tranquilo, respondeu Bernardo.
Izabella que ainda estava meio de "calundum" com o tal sujeito e que era um pouco mais desconfiada, perguntou:
- E por que ninguém pode saber?
O Sr. Ig respondeu, falando baixinho com medo que alguém ouvisse:
- O Rei Sujão não permite que ninguém do seu reino venha até as terras do Rei Limpinho. Eles são inimigos de longa data.
Izabella não ficou muito satisfeita com a resposta e continuou perguntando:
- Mas se é proibido, por que o senhor vem até aqui? Não tem medo que o seu rei descubra e o castigue?
- Me castigar? De jeito nenhum! Nosso rei é uma pessoa muito boa, generosa e que cuida muito bem do seu povo. Temos médicos de graça e se não forem suficientes, ele manda buscar em outros reinos distantes. Além disso, todo mundo recebe uma cesta com alimentos e até algumas frutas. O que eu não quero é que ele fique magoado pensando que não gostamos dele ou do lugar onde vivemos. Respondeu o Sr. Ig todo orgulhoso da grande pessoa que ele acreditava ser o seu rei. E continuou:
- É que as frutas daqui são muito saborosas e tem uma grande variedade. A gente pode escolher o que quer comer. Lá recebemos apenas bananas e às vezes algumas laranjas. O nosso rei só não quer que a gente se misture com o povo daqui. Ele sempre diz que as pessoas que moram aqui não são do bem e que torcem o nariz para nós. E é verdade.
Uma das vezes que vim aqui pegar frutas, aproveitei para dar uma espiada nas pessoas, só por curiosidade e para conferir se era isso mesmo. Não vi nada de estranho nelas e me aproximei para conversar um pouco, mas sem contar que eu morava do outro lado, é claro. Elas até falaram comigo direitinho, mas eu bem vi que torceram o nariz.
Nessa hora Izabella não aguentou e falou: - Então...quem sabe se o senhor tomasse um banhinho antes de vir...
- Vocês não vão contar nada para ninguém, né?
- Claro que não. Fique tranquilo, respondeu Bernardo.
Izabella que ainda estava meio de "calundum" com o tal sujeito e que era um pouco mais desconfiada, perguntou:
- E por que ninguém pode saber?
O Sr. Ig respondeu, falando baixinho com medo que alguém ouvisse:
- O Rei Sujão não permite que ninguém do seu reino venha até as terras do Rei Limpinho. Eles são inimigos de longa data.
Izabella não ficou muito satisfeita com a resposta e continuou perguntando:
- Mas se é proibido, por que o senhor vem até aqui? Não tem medo que o seu rei descubra e o castigue?
- Me castigar? De jeito nenhum! Nosso rei é uma pessoa muito boa, generosa e que cuida muito bem do seu povo. Temos médicos de graça e se não forem suficientes, ele manda buscar em outros reinos distantes. Além disso, todo mundo recebe uma cesta com alimentos e até algumas frutas. O que eu não quero é que ele fique magoado pensando que não gostamos dele ou do lugar onde vivemos. Respondeu o Sr. Ig todo orgulhoso da grande pessoa que ele acreditava ser o seu rei. E continuou:
- É que as frutas daqui são muito saborosas e tem uma grande variedade. A gente pode escolher o que quer comer. Lá recebemos apenas bananas e às vezes algumas laranjas. O nosso rei só não quer que a gente se misture com o povo daqui. Ele sempre diz que as pessoas que moram aqui não são do bem e que torcem o nariz para nós. E é verdade.
Uma das vezes que vim aqui pegar frutas, aproveitei para dar uma espiada nas pessoas, só por curiosidade e para conferir se era isso mesmo. Não vi nada de estranho nelas e me aproximei para conversar um pouco, mas sem contar que eu morava do outro lado, é claro. Elas até falaram comigo direitinho, mas eu bem vi que torceram o nariz.
Nessa hora Izabella não aguentou e falou: - Então...quem sabe se o senhor tomasse um banhinho antes de vir...
Vovó mandou para ela um daqueles olhares com legenda: "Belinha, Belinha".
Vovó achou que já era hora de irem embora, antes que Izabella, que agora nem estava mais tão brava com o homem, chamasse ele de fedido mesmo assim. Começaram a se despedir, quando o Sr. Ig perguntou se eles não gostariam de conhecer o seu reino. Vovó ia começar a dar uma desculpa dizendo que precisam ir mas, Bernardo que até então tinha ficado meio calado, interrompeu:
- Vai ser um prazer. Vamos sim. Disse ele antes que vovó pudesse falar mais alguma coisa.
- Vai ser um prazer. Vamos sim. Disse ele antes que vovó pudesse falar mais alguma coisa.
Vovó e Izabella não entenderam direito a razão dele ter aceitado o convite, mas o seguiram. Afinal, se era importante para um, era importante para todos. E lá foram eles de volta ao rio. Agora de carona na canoa do Sr. Ig para chegar a outra margem, onde ficava o reino do Rei Sujão.
O rio cheirava mal, mas felizmente não era muito largo e logo chegaram do outro lado.
Bem...bem se o que tinham visto antes já os tinha deixado tristes, agora a coisa se mostrava bem pior.
Logo na chegada, em uma parte que ainda era de floresta, a falta de cuidado com a natureza era total. Havia lixo amontoado por toda parte. As árvores tinham os galhos fraquinhos e nenhum fruto.
Aqui e ali, entre uma montanha de lixo e outra, as vezes era possível ver algumas flores que teimavam em buscar os raios de sol.
Eles pararam por um minuto e olharam para a outro lado do rio, onde ficavam as terras do Rei Limpinho...que diferença.
Lá tudo era verdinho, bonito e cheio de vida, a não ser perto do rio porque todo o lixo que era jogado ali acabava afetando o reino vizinho. Seguiram em frente sem dizer nada.
A medida que iam avançando em direção a cidade a situação só piorava. Lixo espalhado pelas ruas, pessoas vestidas de qualquer jeito sem nenhum cuidado. Bernardo e Izabella foram andando e olhando estupefatos. Nunca tinham visto um lugar tão mal cuidado.
Estavam tão perdidos em seus pensamentos que nem repararam que a vovó Cris tinha ficado para trás. Só quando ela deu um grito apavorante é que eles se voltaram e viram a vovó em cima de uma cadeira, com os olhos arregalados e pálida de susto.
- Que foi vovó? Perguntaram os dois quase ao mesmo tempo.
- Um rato enorme. Respondeu vovó, agora já meio sem graça por causa do mico de subir na cadeira e ficar gritando feito louca.
Os dois voltaram para ajudar a vovó a descer da cadeira e tiveram que se controlar para não cair na risada. Mas foi a própria vovó que começou a rir quando percebeu o que tinha feito e que todo mundo na rua estava olhando para ela.
O Sr. Ig riu com eles e disse: - Não se assuste por causa de um bichinho tão pequeno. Tem muitos por aqui e já estamos acostumados com eles.
- Bichinho pequeno!? Aquilo parecia um coelho de tão grande. Respondeu vovó. E eles são transmissores de doenças, o senhor sabia? Na idade média quase metade da população morreu por causa dos ratos.
O Sr. Ig voltou a rir, achando que tudo aquilo não passava de um exagero da vovó por causa do susto que tinha levado.
- Bobagem minha senhora. Isso são coisas inventadas para que as pessoas fiquem com medo. Bobagens...bobagens!!! E seguiu em frente.
Eles o acompanharam, agora já sem achar mais nenhuma graça. Lixo, água parada, pessoas com cara de doente e crianças andando descalças em meio a toda aquela sujeira.
Bernardo e Izabella cuidaram de dar as mãos para vovó, com receio que ela levasse outro susto, porque ratos e baratas não faltavam por ali, sem contar os mosquitos. O mais impressionante é que ninguém parecia se incomodar com isso.
As crianças já tinham visto o bastante e estavam preocupados com a vovó que estava morrendo de medo que uma barata passasse pelo seu pé; e a vovó preocupada que algum mosquito picasse as crianças, principalmente se fosse o mosquito da dengue, afinal com toda aquela água parada, certamente eles tinham encontrado um belíssimo lugar para se reproduzir.
O Sr. Ig convidou-os para um café em sua casa e foi com grande alívio que Izabella e vovó viram Bernardo recusar:
-Obrigada Sr. Ig mas agora temos mesmo que ir andando. O senhor poderia nos levar de volta a outra margem do rio?
E lá foram eles de volta para casa. Ufa, até que enfim!
Eles estavam assustadíssimos com o que tinham visto. Será que as pessoas daquele lugar não percebiam o quanto era ruim e perigoso viver daquele jeito?
Vovó não pode deixar de perguntar a Bernardo o motivo dele ter aceitado o convite do Sr. Ig.
- Fiquei curioso. Toda aquela conversa de proibição, de ter que vir até outras terras para comer um pouco melhor quanto as duas eram tão próximas. Quis ver de perto. Ele não parecia ser uma pessoa ruim. Explicou Bernardo.
- Verdade primo. Talvez só um pouco intrometido e desinformado. Disse Izabella.
- Precisamos fazer alguma coisa urgentemente. Mas o quê? Perguntou vovó.
Izabella sugeriu que fossem falar com o Rei Limpinho. Talvez ele pudesse dar umas dicas para o rei vizinho.
Vovó não achou muito boa a idéia, pois se os dois reis eram inimigos, dificilmente o Rei Limpinho iria querer ajudar o povo que vivia no reino do Rei Sujão, mas Izabella insistiu:
- Vó pensa bem...ratos e baratas não respeitam limites. Se tem tantos do outro lado do rio, logo, logo eles estarão aqui. Sem falar dos mosquitos que voam para qualquer lugar. Bernardo concordou com Bella:
- Verdade vovó! Você não vê o Theo? A casa da tia Bia é toda limpinha e mesmo assim entram mosquitos para picar o primo.
- Vocês estão certos, concordou vovó. Mas será que o Rei Limpinho vai nos receber?
- Isso mesmo, falou Bernardo. Bora para o castelo do Rei Limpinho...
Chegando nos portões do castelo do Rei Limpinho, um simpático guarda veio falar com eles e saber o que queriam. Vovó começou a falar dando uma explicação compriiida, bem do jeitinho que ela sempre faz. Ela nunca diz só "sim" ou "não", sempre explica tudo nos mínimos detalhes. Hehehe...assim é a vovó!
Bernardo com muita delicadeza, disse: - Espera um pouquinho vovó.
Por gentileza, gostaríamos de falar com o Rei Limpinho.
- Ah pois não!,respondeu o guarda. Seus nomes por favor!
- Bernardo , Izabella e vovó.
- E onde vocês moram?
- Em Santos.
- Ah...não são daqui!? Sua Majestade ficará muito feliz em conversar com pessoas de outro reino. Por aqui, por favor!
Bernardo, com um sorrisinho maroto olhou para vovó e deu uma piscadinha querendo dizer: - Simples assim vovó.
O rei era uma pessoa muito agradável e os recebeu com muita cordialidade.
- Muito prazer em conhecê-los. Não imaginam o quanto é bom poder conversar com pessoas de outros reinos, disse o Rei Limpinho. E continuou: - Estou sempre muito ocupado e quase nunca posso viajar. Mas em que posso ajudar vocês?
Eles então contaram tudo o que tinham visto e falaram sobre suas preocupações com as pessoas do outro reino.
O Rei Limpinho por sua vez, falou que aquele era um problema muito antigo mas que não sabia como resolver. O Rei Sujão era seu inimigo declarado. Sua Majestade já havia tentado falar com ele por diversas vezes mas nunca conseguiu.
- E se nós voltássemos lá, desta vez com botas e luvas, e falássemos com as pessoas? Sugeriu vovó. Mas Izabella achou que não iria adiantar. Afinal eles tinham achado graça quando vovó se assustou com o rato. Ninguém se importava.
Bernardo ponderou a respeito e disse: - Bom, alguma coisa precisamos fazer. Do jeito que está é que não pode ficar.
O Rei Limpinho encolheu os ombros e abriu os braços com uma expressão de desânimo. Queria ajudar mas não sabia como.
Os quatros ficaram por ali algum tempo sem dizer uma palavra e pensando no que poderia ser feito.
Não demorou muito para que um ministro de Sua Majestade, que havia ficado sabendo dos visitantes, fosse até o salão real conhecê-los e estranhou que estivessem todos tão calados, afinal Sua Majestade sempre ficava muito feliz quando recebia forasteiros.
Logo quis saber o que estava acontecendo. Foi Bernardo quem contou, ao que o ministro respondeu:
- Hum...sei...uhum...
O senhor tem alguma ideia? Perguntou Izabella ansiosa. Ele fez uma cara muito séria e com um ar pensativo respondeu:
A situação é complicada, mas vejamos: hum...talvez...pode ser...é...quem sabe...poderíamos...Não. Não faço a menor idéia do que pode ser feito.
Diante desta falta de solução, começaram a se levantar para irem embora quando o Rei Limpinho os interrompeu:
- Ora, ora meus amigos! Para que tanta pressa!?
- Majestade nós agradecemos muito a sua atenção mas já é hora de irmos. Quem sabe um outro dia...ia dizendo vovó, quando Sua Majestade com um gesto pediu que voltassem a se sentar.
- Por favor, não posso deixá-los ir embora sem ao menos tomar um suco. Posso sugerir um? Perguntou o rei.
- Ah...claro! Pode até sugerir uns biscoitinhos também. Afinal de contas nem café da manhã conseguimos tomar ainda, falou Izabella toda faceira.
Sua Majestade deu uma gargalhada e disse: - Que indelicadeza a minha! Como não percebi antes. Vou mandar servi-los agora mesmo.
Não demorou muito para que a mesa fosse posta com várias guloseimas. Tinha biscoito de aveia com gotas de chocolate, pãezinhos de trigo vermelho, docinhos de "bananaxi", "mangabolas" madurinhas e uma enorme jarra com suco de "marabricó". Frutas que só existiam naquele reino (e na imaginação da vovó). Uma delícia!
Lanchinho feito, agora estavam até mais dispostos para enfrentar a jornada de volta para casa. Agradeceram a hospitalidade do rei, que se colocou a disposição para ajudá-los caso tivessem alguma ideia.
Tão logo deixaram o palácio, os três se entreolharam e Bernardo disse:
- A coisa aqui é bem complicada. Não vai ter jeito, precisaremos das nossas roupas de super heróis!
- Ah não Bernardo! Aquelas roupas apertadinhas? Nem pensar meu filho! A vovó engordou muito desde de nossa última missão. Vou ficar horrível e depois é muito difícil ajeitar a máscara por cima dos óculos...e também aquelas luvas me deixam com mais calor e...
Vovó falava sem parar, toda agitadinha. Quando se deu conta que as crianças estavam com os braços cruzados só olhando para ela e esperando que terminasse de reclamar.
- A coisa aqui é bem complicada. Não vai ter jeito, precisaremos das nossas roupas de super heróis!
- Ah não Bernardo! Aquelas roupas apertadinhas? Nem pensar meu filho! A vovó engordou muito desde de nossa última missão. Vou ficar horrível e depois é muito difícil ajeitar a máscara por cima dos óculos...e também aquelas luvas me deixam com mais calor e...
Vovó falava sem parar, toda agitadinha. Quando se deu conta que as crianças estavam com os braços cruzados só olhando para ela e esperando que terminasse de reclamar.
Vovó meio sem graça, falou: - Está bem...já entendi. Vamos lá!
Pensaram e discutiram sobre várias maneiras de abordar o problema e no fim, chegaram a conclusão de que o melhor seria chegar de mansinho sem que ninguém percebesse e vrummm...sair recolhendo todo o lixo.
Era uma ideia arriscada. Não sabiam qual seria a reação do povo, mas acreditavam que valeria a pena tentar. Afinal, as pessoas de um modo geral se encantam com aqueles que têm ou parecem ter algum tipo de poder. Usariam isso a seu favor.
Verdade que suas ações poderiam despertar a ira do Rei Sujão, mas nisso suas roupas especiais viriam bem a calhar, pois suas identidades estariam protegidas.
Com tudo muito bem planejado, partiram para a ação.
Verdade que suas ações poderiam despertar a ira do Rei Sujão, mas nisso suas roupas especiais viriam bem a calhar, pois suas identidades estariam protegidas.
Com tudo muito bem planejado, partiram para a ação.
Tinham conseguido emprestado um bote que usaram para atravessar o rio. A primeira ação do grupo foi limpar aquela área perto do rio e depois partiram para a cidade.
Claro que não passaram despercebidos. Estavam usando roupas muito diferentes daquelas usadas pelas pessoas comuns. A roupa do Bernardo era toda preta e tinha duas asas prateadas nas costas; a da Belinha era toda cor de rosa com detalhes em branco e também tinha duas asas nas costas, só que douradas.
Vestidos como super heróis, Bernardo e Izabella, conseguiam ser muito...muito rápidos e podiam até voar.
A da vovó era mais simples. Toda cinza chumbo, sem asas (ela não voava), mas com um cinturão de utilidades que tinha espanador, pano de pó, desengordurante, desinfetante e sacos de lixo de várias cores. Ah...e um vidrinho de álcool gel para o caso de não terem onde lavar as mãos.
A chegada inesperada dos três causou o maior reboliço no reino do Rei do Sujão e apesar dos nossos heróis estarem gostando de ser alvo das atenções, logo se colocaram a trabalhar.
Bernardo e Izabella começaram rapidamente a recolher todo o lixo, fazendo duas pilhas: uma para o lixo reciclável e outra para o não reciclável. Vovó tinha ficado em terra para ir embalando tudo.
Não demorou muito para que algumas crianças que estavam por ali, achassem a coisa divertida e se juntassem a vovó para ajudar.
Depois do lixo devidamente embalado, Bernardo e Izabella, voaram a uma velocidade incrível, levando tudo para as terras do Rei Limpinho. Lá existia uma usina de reciclagem e um incinerador.
O lixo que não era reciclável iria direto para o incinerador; já o lixo reciclável seria novamente separado por categoria: papéis para o latão azul claro; plástico no vermelho; vidro no verde; metal no amarelo. Depois de separados, esses materiais seriam vendidos para as indústrias de reciclagem.
O Rei Limpinho já fazia isso há muito tempo. O dinheiro conseguido com a venda desses materiais era usado para melhorar a vida do povo, trazer mais conforto e até para construir praças com quadras de esporte, brinquedos e livros novos para as crianças.
Sua Majestade, além de concordar em incinerar o lixo do reino ao lado, também iria comercializar o lixo reciclável para os seus vizinhos. Tinham esperanças de que o povo percebesse que sua vida poderia ser muito melhor.
Toda ação dos nossos heróis tinha causado o maior reboliço no reino. Num primeiro momento, o povo achou engraçado ver aquelas três figuras com roupas tão diferentes recolhendo o lixo. E mais engraçado ainda que separassem tudo.
Tirar o lixo da rua o Rei Sujão já fazia de tempos em tempos...mais sumir como ele??? E não deixar nem uma sujeirinha nas ruas? Para onde será que tinham levado todo o lixo? No rio não estava. Estranho...muito estranho!!!
Mas enfim, por mais estranho que fosse, estavam gostando do resultado. Parecia que a cidade havia ficado mais clara, mais agradável e com um cheirinho muito bom.
As crianças, que antes para jogarem bola, precisavam empurrar a lixarada para um canto qualquer, já não tinham esse trabalho. Pareciam estar até mais dispostas.
O que ninguém notou, foi que enquanto todos trabalhavam, alguém os observava de longe, meio escondido nas sombras. Tentando descobrir quem eram aquelas pessoas. Tinha a impressão que já os conhecia de algum lugar... Mas de onde?
Vovó e os meninos, só podiam ir nos finais de semana para que as crianças não perdessem aula. E assim, todos os sábados lá iam os três fazer o faxinão nas terras do Rei Sujão.
Agora o povo já não estranhava mais a presença deles e até ficava esperando que chegassem para ajudá-los. Estavam gostando do resultado. Eles ainda encontravam muita sujeira pelas ruas, mas a cada semana que passava a quantidade de lixo era menor.
Com o dinheiro que o Rei Limpinho arrecadou vendendo o lixo reciclável, Bernardo comprou vários latões de lixo e Izabella e vovó cuidaram de espalhar por todo o reino.
A vida estava voltando aquele lugar! O povo estava mais feliz...mais disposto. O ar estava ficando mais leve e agradável. Tudo ia muito bem, até que um dia...
Por duas semanas seguidas, vovó e os meninos, não puderam ir até as terras do Rei Sujão. Eles tinham um compromisso imperdível... daqueles que não se pode faltar nem adiar.
Izabella e Bernardo tinham ficado encarregados de organizar a torcida, levando faixas e balões nas cores do time. Também o primo Nicolas havia sido convidado, mas infelizmente ele tinha treino de natação e não chegaria a tempo de ajudar na organização. Tranquilo. Todo mundo entendia. Afinal, Nicolas era um atleta!
Por esse motivo, o faxinão teria que esperar um pouco. Paciência! Não podiam deixar a Gio na mão e muito menos deixar de torcer por ela. Mas sabiam que ficando tanto tempo sem aparecer teriam muito mais trabalho quando voltassem. Enfim, era por uma boa causa.
E valeu muito a pena! Nicolas conseguiu chegar bem no comecinho da primeira partida e se juntou a turma para vibrar e torcer por sua prima quase irmã.
Depois do jogo, foram comemorar com um super lanche que a vovó preparou para eles, com hambúrguer caseiro, bolo de cenoura e sorvete. Booom!!!
Estavam felizes com a vitória da pequena e no domingo bem cedinho partiram para as terras do Rei Sujão, cheios de energia para cumprir suas tarefas.
Mas quando chegaram lá...Não podiam acreditar no que estavam vendo. Como assim? O que aconteceu por aqui? Ficaram um pouco perdidos sem entender direito o que havia acontecido.
Tudo, absolutamente tudo, estava limpo. Nenhum papelzinho na rua, nenhum pedacinho de fruta. Limpo...limpo...limpo e todas as lixeiras tampadas. Um espetáculo!
Estavam andando pelas ruas, olhando tudo entre admirados e surpresos, quando um garotinho veio correndo na direção deles.
- Que bom que vocês chegaram!
- Onde está todo mundo? Perguntou Bernardo.
Olharam um para o outro, ainda sem entender direito o que se passava. Vovó deu uma entortadinha na boca, como ela sempre faz quando está pensativa; Bernardo coçou o queixo e Izabella disse:- Hum!
Intrigados, seguiram em frente rumo a casa do Sr. Ig.
Chegando lá encontraram quase todas as pessoas do reino reunidas ali. Os adultos conversando e rindo, enquanto as crianças brincavam. Tinha também um grupo separando varas de pescar, anzóis e iscas; outros arrumando cestas de piquenique com diversos pratos que tinham sido preparados pelos moradores. Parecia que estavam em outro lugar. Incrível!
Ficaram ali na porta parados de queixo caído, quando o Sr. Ig e os outros moradores perceberão que haviam chegado e foram em suas direções. Foi o Sr. Ig quem falou primeiro:
- Sejam muito bem vindos, meus amigos!
- Sr. Ig, que está acontecendo aqui? E o que aconteceu com as ruas da cidade? Perguntou Izabella por detrás da sua máscara.
O Sr. Ig correu até o portão e deu uma espiadinha na rua e voltou com a testa franzida: - Mas está tudo bem...em ordem! Do que a mocinha está falando?
Bernardo que ainda não tinha se recuperado direito, apenas disse:
- É isso. Fomos pegos de surpresa.
- É isso. Fomos pegos de surpresa.
Vovó olhava tudo admirada e de olho num café fresquinho que estava sendo preparado. Ela adorava café fresco passado no coador de pano.
- Muito bem! Falou o Sr. Ig. - Sentem-se que vou contar tudo à vocês.
O Sr. Ig então contou que no primeiro sábado em que eles não apareceram, o povo sentiu muito a falta deles. Esperaram por toda a manhã, mas quando perceberam que não viriam mais, começaram eles mesmos a limpar tudo. Tinham se acostumado com aquele faxinão aos sábados e não queriam que o reino voltasse a ser como era antes.
No segundo sábado a mesma coisa. Estavam achando que tinham partido para sempre e que jamais poderiam agradecê-los por ter-lhes mostrado que poderiam viver de um jeito muito melhor.
- Agora que estão aqui, nos dêem o prazer de serem nossos convidados de honra para o piquenique que estamos organizando. Será as margens do rio. Convidou o Sr. Ig, e continuou:
- Espero que tenham roupas de banho nas mochilas. Assim o menino Bernardo poderá finalmente tomar seu banho de cachoeira. E falando assim, deu uma piscadinha para eles.
Vovó se sentiu aliviada e foi logo tirando a máscara.
- Então o senhor sabia que éramos nós?
- No começo fiquei na dúvida, mas depois observando melhor, cheguei a conclusão que só poderiam ser vocês. Nunca ninguém havia se importado com a gente para valer. Os meninos foram muito gentis me ajudando a recolher as frutas no dia que nos conhecemos. E depois, percebi o quanto vocês ficaram chocados com nossa maneira de viver. Só podiam ser vocês! Falou o Sr. Ig.
Bernardo e Izabella também tinham tirado suas máscaras e estavam felizes, com um sorriso de orelha a orelha. Só quando o Sr. Ig fez o convite para um banho de cachoeira, uma pequena sombra passou pelo rosto de Bernardo fazendo seu sorriso desaparecer.
- Não trouxe roupa de banho. Falou ele com certa tristeza.
- Ah...mas a vovó trouxe! E olhando para os que estavam na sala explicou: - Sabe como é...quando a gente sai com criança é sempre bom estar prevenido. Foi dizendo vovó, enquanto tirava da sua mochila casaco, gorro, escova de dentes, álcool gel, filtro solar, camisetas, shorts...
- Caramba! Disse ela. Tenho certeza que coloquei a roupa de banho de vocês aqui. Enquanto falava, revirava toda a mochila. Ahã...achei! Eu sabia que tinha colocado aqui. Convite aceito. Bora pro rio moçada!
- Caramba! Disse ela. Tenho certeza que coloquei a roupa de banho de vocês aqui. Enquanto falava, revirava toda a mochila. Ahã...achei! Eu sabia que tinha colocado aqui. Convite aceito. Bora pro rio moçada!
Inesperadamente aquele estava sendo um dia incrível. Banho de rio, cachoeira, passeio de caiaque, vários petiscos e sucos deliciosos. Eles tinham se preparado para um dia de trabalho pesado e agora estavam se divertindo para valer! Eles e todas as pessoas do reino.
Pena que não tenha durado muito tempo!!!
Pena que não tenha durado muito tempo!!!
Sem que ninguém esperasse, de repente apareceu o Rei Sujão acompanhado dos seus ministros. Estava vermelho de raiva, totalmente descontrolado.Bufava...gesticulava e gritava com todo mundo:
- MAS O QUE É ISSO??? O QUE ESTÁ ACONTECENDO AQUI???VAMOS...RESPONDAM. PERDERAM A LÍNGUA??? SEUS IRRESPONSÁVEIS!!! ISSO DEVE SER COISA DAQUELE TAL DE REI LIMPINHO...
Todos ficaram paralisados de medo. Nunca tinham visto seu soberano naquele estado.
Um pouco hesitante, o Sr. Ig deu um passo a frente e tentou explicar, mas Sua Majestade não ouvia nada, nem ninguém.
- VOLTEM JÁ PARA SUAS CASAS. ESQUECERAM QUE A ÁGUA DESTE RIO NÃO PRESTA??? ESQUECERAM QUE O POVO DO OUTRO LADO CONTAMINOU TUDO PARA ACABAR COM O NOSSO REINO??? ESQUECERAM QUE AQUI NÃO SE PODE NADAR OU PESCAR???
Vovó e os meninos ficaram tão assustados com a invasão daquele homem raivoso que custaram a perceber que se tratava do Rei Sujão. Uma vez recuperados do susto, Bernardo se colocou a frente do grupo e começou a falar:
- Calma Majestade! Acho que o senhor está muito enganado. Olhe para o rio? Esta água lhe parece contaminada? Era o lixo acumulado nas suas margens que contaminava a água. Está vendo alguma sujeira por aqui?
- Ahh... então temos aqui um dos espiões do Rei Limpinho...onde estão seus cúmplices? E falando assim segurou Bernardo pelo braço e o sacudiu com força.
Ninguém sabe dizer direito como aconteceu. Tudo foi muito...muito rápido. De repente vovó surgiu na frente do Rei Sujão com uma cara muito brava, parecendo até uma "capivara com unha encravada", disse:
- Larga já o meu neto seu Rei Lambão.
Os súditos que estavam ali, logo corrigiram a vovó gritando em coro:
- É Sujão!!!
- Sujão, lambão, porcalhão, fedidão...E vovó continuou falando e falando e falando. Sua Majestade de vermelho de raiva passou a branco de susto.
Vovó continuou falando com o dedo apontado para o nariz do Rei Sujão, que não sabia como reagir e começou a andar para trás. Ela foi falando e andando e Sua Majestade recuando...ela andando e ele recuando...andando e recuando... andando e tchbummm!
O Rei Sujão não percebeu que estava se aproximando do rio e caiu de costas. Todos caíram na gargalhada, mas não demorou para que o riso desse lugar a caras de espanto quando o rei começou a gritar assustado, tentando se levantar para sair correndo como se tivesse sentado em uma fogueira.
Foi o fim do piquenique. Ninguém mais tinha ânimo para continuar com as brincadeiras depois daquela cena.
Devagarzinho foram recolhendo tudo e voltando cada um para sua casa. Vovó e os meninos também se despediram e aceitaram as desculpas que o Sr. Ig pediu em nome do seu soberano.
Vovó e Bernardo vieram por todo o caminho conversando, quando se deram conta de que Izabella estava muito calada.
- Que foi Belinha? Perguntou vovó.
- Está cansada prima? Quis saber Bernardo.
- Nada disso gente, respondeu Izabella ainda com um ar distante. Estava aqui pensando no Rei Sujão...
- Nem me fale dessa criatura. Abusado, segurar meu neto pelo braço. Onde já se viu!? Falou vovó com toda sua indignação voltando.
- Não é isso vovó. Falou Izabella.
- Como não? Era só o que faltava minha filha, você agora querer defender aquele...aquele...
- Calma vovó, respira e me escuta. Vocês perceberam a reação do rei quando caiu no rio?
- Bem feito! Pena que eu não tinha um escovão na hora para...Começou de novo vovó.
Bernardo foi a até ela e deu um beijinho para lá de gostoso e segurando em sua mão, falou: - Relaxa vovó. Fala Belinha...o que você está pensando?
Então...continuou Belinha. Ele ficou assustado de verdade. Será que ele realmente acredita que as águas estão contaminadas?
Enquanto isso, no castelo do Rei Sujão, Sua Majestade estava mergulhado na banheira real, uma tina de madeira para falar a verdade, e se esfregava com tanta força que já estava todo vermelho, mas ainda assim gritava:
- Mais água...mais água!!! Ah...e tragam mais sabão também.
- Majestade...Tentou falar um dos seus ministros.
- Não me aborreça. Falou o rei quase chorando, sem parar de se esfregar. Preciso tirar todas essas impurezas do meu corpo. Água...água...mais água!
- Majestade...Insistiu o ministro.
- Água...água! Gritava o rei.
- Majestade...essa água é do rio.
O Rei Sujão ficou paralisado, mudo e com os olhos arregalados.
Como assim do rio? Perguntou ao ministro. -Não pode ser!!! A água vem dos latões que os soldados trazem...
Como assim do rio? Perguntou ao ministro. -Não pode ser!!! A água vem dos latões que os soldados trazem...
- E onde Sua Majestade acha que os soldados pegam a água? Perguntou o ministro.
Sua Majestade ficou pensativo por alguns instantes e depois respondeu com cara de pastel:
- Não sei. Oh, pobre de mim! Estou contaminado para sempre! Vou morrer! Olhe só para essas manchas vermelhas no meu corpo!!!
- Calma Majestade! Deixa que eu lhe ajude. Falou o ministro. Essas manchas vermelhas são porque o senhor se esfregou com muita força.
- Não são não...gritava o rei. Vou morrer...vou morrer!!!
- Majestade...O ministro tentava em vão acalmar o rei que já não ouvia ninguém.
- MAJESTADE...CAAALADO!
O Rei Sujão ficou tão surpreso com o grito do seu ministro que se calou na mesma hora.
- Por favor Majestade...deixe que eu lhe explique. Se acalme! O senhor não está contaminado e nem vai morrer por causa da água.
Não foi fácil, mas finalmente Sua Majestade se aquietou e o ministro pode então contar tudo o que vinha acontecendo no reino.
Falou dos nossos heróis, de como vinham limpando tudo, de como o Rei Limpinho havia ajudado e o mais importante de tudo...de como o povo estava gostando de viver daquela nova maneira.
Falou dos nossos heróis, de como vinham limpando tudo, de como o Rei Limpinho havia ajudado e o mais importante de tudo...de como o povo estava gostando de viver daquela nova maneira.
As pessoas agora se preocupavam com o reino e cuidavam de mantê-lo sempre limpo e organizado. Alguns estavam fazendo hortas em seus quintais, para poderem comer verduras fresquinhas. E também tinham plantado árvores que logo, logo dariam frutas deliciosas.
O rio não tinha sido contaminado pelo reino vizinho. Tinha sido contaminado pelo monte de lixo que ele mesmo, o Rei Sujão, mandava jogar nas suas margens. Agora que tudo estava limpo, o rio vinha se recuperando e já era possível até pescar em suas águas.
- Está bem...está bem. Falou o rei meio cabisbaixo. Agora me deixe sozinho por favor. Preciso pensar.
- Claro Majestade! E o ministro foi embora, sem entender porque o rei havia ficado triste. Aquelas eram boas notícias, ele era uma boa pessoa e gostava do seu povo. Só não tinha percebido que eles podiam querer uma vida diferente daquela que ele oferecia. Não conseguia entender a tristeza de seu soberano. E que conversa era essa agora de pensar? Sua Majestade nunca tinha feito isso antes.
Sozinho, o Rei Sujão se pôs a andar de um lado para o outro.
Como tudo aquilo podia ter acontecido sem que ele percebesse?
Quem eram de fato aquelas crianças e a tal vovó? E por que o Rei Limpinho teria ajudado? Seria um plano para invadir o seu reino? Será que o povo já não gostava mais dele?
Como tudo aquilo podia ter acontecido sem que ele percebesse?
Quem eram de fato aquelas crianças e a tal vovó? E por que o Rei Limpinho teria ajudado? Seria um plano para invadir o seu reino? Será que o povo já não gostava mais dele?
Sem querer olhou para o seu corpo e percebeu que as manchas vermelhas estavam sumindo. Talvez fosse mesmo as vigorosas esfregadelas que as tinham provocado. Se assim fosse, então o que o ministro falou podia ser verdade e o rio já não estar contaminado...
Sem que ninguém percebesse, o rei se disfarçou e saiu a noite para dar uma volta por seu reino.
As coisas estavam mudadas. Tudo estava tão limpo e bonito. O povo estava mais feliz e pelas janelas abertas o rei pode ver as pessoas conversando animadas. Em algumas ruas as crianças jogavam e brincavam de pular corda.
O rei foi andando, já sem prestar muita atenção no caminho e quando se deu conta estava as margens do rio. Sentou-se e ficou olhando a sua volta. Já não havia nenhum monte de lixo. As árvores pareciam estar mais fortes. Não tinha visto nenhum rato ou barata.
Se pôs a admirar o rio. Nunca antes havia parado para prestar atenção. Como era bonito! Agora a noite então, iluminado pela a lua, parecia um lençol de prata.
O Sr. Ig que estava sempre atento e não perdia nada, viu quando o rei passou em direção ao rio. Apesar de estar disfarçado, o Sr. Ig reconheceu o jeito do andar de seu soberano e foi atrás dele.
Chegou de mansinho e ficou de longe espiando. Não queria incomodar mas estava realmente preocupado e um tantinho curioso. Todo aquele destempero por causa de um simples piquenique não era normal. Estava tão distraído que sem querer acabou pisando em algumas folhas secas fazendo barulho.
O Sr. Ig prendeu a respiração de susto. Não queria ver o rei bravo novamente, mas Sua Majestade apenas se voltou para trás e perguntou quem estava ali. Com alguma relutância o Sr. Ig saiu de seu esconderijo e se aproximou timidamente do rei.
- Boa noite Majestade! Desculpe...eu não queria incomodar, mas pensei... Ia dizendo um tanto nervoso.
- Acalme-se meu bom homem. Disse o rei. Venha, sente-se aqui ao meu lado. Talvez, você que é do povo, possa me dar algumas respostas.
Ainda que com receio, o Sr. Ig se aproximou e sentou-se ao lado de Sua Majestade. Contou tudo, tim-tim por tim-tim.
Falou de como havia conhecido os meninos e a vovó. Contou até que uma vez ou outra ia até o reino vizinho para colher algumas frutas e de como elas eram deliciosas.
O rei ouviu tudo sem interromper uma vez sequer...sem dizer uma única palavra. Quando o Sr. Ig terminou o seu relato, Sua Majestade olhou para ele e perguntou:
- Isso é tudo?
- Sim Majestade. Respondeu o Sr. Ig, com certo medo, mas feliz por ter contado a verdade. E até já esperava pelos gritos do rei, mas nada disso aconteceu.
Sua Majestade, o Rei Sujão, apenas balançou a cabeça de modo afirmativo e se levantou para ir embora. O Sr. Ig estava muito nervoso, mesmo assim não se conteve e perguntou:
- Simmmm? Sim o quê Majestade?
Mas o rei nada respondeu. Levantou-se e com um tapinha nas costas do Sr. Ig foi-se embora.
Pobre Sr. Ig que voltou para casa sem saber o que o rei tinha achado sobre aquilo tudo. E se Sua Majestade ficasse outra vez com raiva? E se resolvesse expulsar o Sr. Ig do reino? E se...? E se...?
Naquela noite, ao voltar para casa, o Sr. Ig não conseguiu dormir.
Muitos dias se passaram e tudo parecia tranquilo nas terras do Rei Sujão, que agora era sujão sozinho porque seu povo já havia mudado a maneira de viver.
O Sr. Ig já estava até um pouco mais relaxado pensando que nada aconteceria e que Sua Majestade já devia até ter esquecido toda aquela história, quando um belo dia sem que ninguém esperasse muitos cartazes foram espalhados por todo o reino.
Sua Majestade convocava todos os súditos para comparecerem as margens do rio no domingo seguinte. O texto era muito claro e dizia que ninguém deveria faltar.
Esta convocação causou o maior reboliço em todo o reino. Alguns ficaram muito curiosos; outros muito assustados e o nosso Sr. Ig ficou em pânico.
Ele tinha certeza que todos seriam expulsos. Só podia ser isso...claro! Só isso explicaria o rei estar convocando todos a comparecerem as margens do rio. Era para botar todo mundo pra correr, ou pior, para nadar.
Naqueles dias que antecederam o domingo, só se via o pobre Sr. Ig cabisbaixo se lamentando pelos cantos.
No dia marcado todos compareceram. Apesar do medo ninguém ousou desobedecer o rei e quando chegaram as margens do rio quase caíram para trás, tamanho foi o susto que levaram.
Tudo estava arrumado para uma grande festa. E um grande palco havia sido montado.
Muitas pessoas do outro reino estavam atravessando o rio para se juntar a eles.
Mesmo sem entender direito, o Sr Ig pensou que talvez tivesse se preocupado à toa. Ainda estava tentando adivinhar o que aconteceria ali, quando ouviu as trompetas tocarem.
Todos prenderam a respiração ao verem os dois reis subirem juntos no palco. Como estavam nas terras do Rei Sujão, foi ele quem falou primeiro:
- Meus caros súditos, quero agradecer a presença de vocês e apresentar nosso vizinho, Rei Limpinho.
Tudo que o povo conseguiu dizer foi:
- Oooohhhh!
E sua majestade continuou:
- Sei que vocês devem estar estranhando pois sempre ouviram que nós eramos inimigos. Pois bem, é verdade. Éramos realmente inimigos, muito embora eu nem soubesse o motivo. Nasci e cresci acreditando que as coisas eram assim e pronto.
Quando parei para pensar e buscar o verdadeiro motivo pelo qual éramos inimigos, descobri que toda essa história tinha começado a muitos e muitos anos atrás quando nossos tataravós eram ainda crianças.
Um dia, meu tataravô jogou um papel no chão e o tataravô do Rei Limpinho achou aquilo muito feio e ruim. Desse dia em diante nunca mais pararam de brigar.
Nunca parei para pensar que podia ser diferente. E de novo o povo se manisfestou a uma só voz:
- Oooohhhh!
O rei contou da conversa que tinha tido com o "corajoso" Sr. Ig, do seu passeio pelo reino, e de como o povo lhe pareceu mais feliz, de um jeito que ele nunca tinha imaginado.
E o povo em coro murmurou:
- Hummmm...
Tudo isso junto, fez com que ele criasse coragem e fosse procurar pelos nossos amigos de Santos e o Rei Limpinho.
E continuando, disse o rei:
- Hoje é um dia de festa para comemorarmos essa nova fase do nosso reino. Sei que não tenho sido um bom governante, mas vocês me ensinaram que um povo forte e determinado não aceita um rei qualquer. Também aprendi que é preciso escutar e respeitar, inclusive as pessoas que pensam diferente de nós. E finalmente que a atitude de um, afeta a vida de todos.
Ao que o povo respondeu:
- Uau!!!
O Rei Limpinho estava tão emocionado que nem quis falar nada e assim com um forte abraço e um aperto de mãos, deram inicio a grande festa que finalmente uniria os dois reinos para sempre.
E foi assim que a história entrou por uma porta e saiu pela outra, quem quiser que conte outra!
Fim
Pensada pelo Bernardo; escrita pela vovó.
*** Meus agradecimentos sinceros a todos os desenhistas que disponibilizaram seus desenhos na internet. Com exceção do desenho dos nossos heróis, que foi feito pelo Bernardo, todos os outros foram copiados de sites de "Desenhos para Colorir".













































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